Home
Uso de espectrometria de massas direcionada para a detecção e diferenciação de lesões císticas pancreáticas benignas, pré-malignas e malignas

Título original: Highly Accurate Identification of Cystic Precursor Lesions of Pancreatic Cancer Through Targeted Mass Spectrometry: A Phase IIc Diagnostic Study


O câncer pancreático é conhecido pela sua dificuldade de diagnóstico precoce em que, além de não apresentar sintomas específicos, seus precursores são lesões de difícil diferenciação por técnicas de imagem. Existem estudos que indicam que o câncer pancreático também desenvolve lesões císticas como as neoplasias mucinosas papilares intraductais (NMPI) e neoplasias mucinosas císticas, que são precursores visíveis e juntos compõem 10-50% das lesões pancreáticas, podendo auxiliar na identificação precoce do câncer. No entanto, pelas técnicas disponíveis para detecção e diferenciação destes tumores, estes são frequentemente confundidos com outros tipos de tumores benignos, ou até mesmo não são detectados por ensaios baseados em antígenos. Uma alternativa seria a análise proteômica por espectrometria de massa que consegue analisar o conteúdo proteico da amostra e quantificá-lo com uso de biomarcadores. Neste cenário, o presente estudo buscou validar a análise proteômica quantitativa para identificar e distinguir entre lesões císticas pancreáticas pré-malignas e neoplasias com alto grau de displasia manifestada. Leia mais.


Key points:


Doença: Câncer pancreático

Contexto: diagnóstico

Desenho: estudo de fase IIc diagnóstico

Amostra: 172 pacientes

Desfechos: histologia e avaliação clínica foram usados como padrões de diagnóstico

Autores da análise: Rachel Riechelmann

Qualidade geral do estudo*:

Limitações: O estudo utilizou apenas um centro para conduzir o estudo. Outras neoplasias poderiam ser falso-positivas, como neoplasias pseudopapilares sólidas e neoplasias endócrinas císticas, por este motivo, pacientes que as continham foram excluídos do estudo. Por ausência de componentes císticos que poderiam ser alvo de aspiração por agulha fina, neoplasias deste perfil estão fora do escopo do estudo.

Potencial impacto na prática clínica: Em vista da escassez de técnicas robustas que possam identificar e diferenciar lesões pré-malignas, os achados do estudo oferecem uma alternativa interessante neste cenário, possibilitado a identificação da doença em estágio precoce e potencialmente reduzir a mortalidade. No entanto se requer mais estudos que sejam conduzidos com amostras maiores e em outras regiões e países.

*Avaliação do editor do GTG:
Muito baixa     Baixa     Moderada     Alta     Muito alta

Contexto:


O câncer pancreático é marcado pela sua dificuldade em se obter um diagnóstico precoce. A ausência de sintomas específicos somada a formação de lesões microscópicas nos ductos pancreáticos, precursores da doença, mas que não são detectáveis por técnicas de imagem, contribuem para o diagnóstico tardio da doença (1, 2). No entanto, evidências do desenvolvimento de cistos grosseiramente visíveis como precursores desta doença tem ganhado relevância (1, 3). Consistindo primariamente de duas neoplasias mucinosas, as neoplasias mucinosas papilares intraductais (NMPI) e neoplasias mucinosas císticas (NMC), juntas chegam a representar até 50% das lesões pancreáticas císticas (LCP) (4). Dentre as LCPs, existem também os tumores benignos como as neoplasias serosas císticas e os pseudocistos inflamatórios, os quais não oferecem risco, mas pelas técnicas disponíveis, como ressonância magnética e ultrassom endoscópico, não há como diferenciar os tumores benignos, pré-malignos ou malignos (4, 5). Soma-se a isto a alta prevalência das LCPs, sua natureza assintomática e o alto risco da cirurgia pancreática, o que impossibilita ou limita intervenções profiláticas, criando-se a necessidade de um diagnóstico diferencial mais preciso (6). Uma abordagem muito utilizada envolve o uso de ultrassom endoscópico que aspira o fluido cístico para quantificação de antígeno carcinoembrionário (CEA), mas como mencionado anteriormente não é possível diferenciar os tumores malignos dos benignos de modo acurado e não há correlação com o grau da displasia do tumor (5, 7, 8). Amplamente empregado no ramo da pesquisa, a análise proteômica por espectrometria de massas consegue quantificar vários biomarcadores em uma amostra podendo inclusive substituir no futuro os ensaios com anticorpos (9), uma vez que a glicosilação presente em displasias e câncer, que é uma fonte de erros desta análise “padrão”, é evitada na espectrometria de massas.

Análise:


Visando conceber e validar uma alternativa diagnóstica para identificar e diferenciar entre LCPs pré-malignas e neoplasias císticos com alto grau de displasia/câncer (AGD), o presente estudo fez uso da análise proteômica direcionada por espectrometria de massas tendo, além deste objetivo, encontrar e avaliar marcadores para diferentes subtipos epiteliais de NMPIs, que poderiam ser utilizados para prever o risco de transformação maligna.

Para tanto, 172 pacientes com LCPs bem caracterizados, representando os três tipos/subtipos mais comuns de tumores e seis pseudocistos, foram segmentados em três coortes: a primeira foi a exploratória (24 pacientes), na qual os candidatos a biomarcadores foram identificados; na segunda, a de treinamento (80 pacientes), os biomarcadores foram testados; na terceira, por fim, estes foram validados (68 pacientes).

Foram identificados oito candidatos a biomarcadores para potencial maligno ou AGD/câncer na coorte exploratória, obtidos a partir da análise de fluido cístico obtidas por aspiração guiada por ultrassom. A partir destes determinou-se 30 peptídeos elegíveis a quantificação por espectrometria de massas, os quais foram fortemente rotulados para diferenciação destes para os nativos da amostra selecionada. Os peptídeos rotulados foram então testados na coorte de treinamento e prospectivamente avaliados na coorte de validação, tendo como resultado o diagnóstico patológico cirúrgico ou acompanhamento clínico.

Para a detecção ou exclusão de neoplasias AGD/câncer, quatro pontos foram considerados: (1) histologia, (2) metástase confirmada do câncer pancreático, (3) acompanhamento por três anos sem alterações morfológicas, e (4) diagnóstico inequívoco de lesão intrinsecamente benigna (neoplasia ou pseudocisto seroso). Os subtipos epiteliais do NMPIs foram identificados por histologia.

O conjunto ideal de marcadores para detectar o potencial maligno foi um painel de peptídeos com a mucina-5AC e mucina-2, os qual pôde diferenciar lesões pré-malignas das malignas e benignas com uma precisão de 97% (IC95%: 89-99%) na coorte de validação. Este resultado foi superior quando comparado a das análises padrão referência: fluido de cisto por ACE (61%; IC95%: 46-74%; P=0,001) e citologia (84%; IC95%: 71-92%; P = 0,02). Uma combinação das proteínas mucina-5AC e o antígeno de células-tronco da próstata puderam identificar as neoplasias AGD/câncer com uma precisão de 96% (IC 95%: 90-99%) e detectaram 95% das lesões malignas ou displásicas severas, em comparação com 35% e 50% respectivamente para ACE e citologia (p<0,001 e p=0,003).

Conclusão / Fechamento:


O estudo conclui que o uso de apenas três biomarcadores de fluido cístico na técnica de espectrometria de massas direcionada proveu uma identificação altamente precisa de precursores do adenocarcinoma pancreático. Por fim complementa que estudos futuros determinem se este método poderia facilitar um diagnóstico precoce da doença, permitindo sua intervenção e prevenção.

Referencias:

  1. Canto MI, Hruban RH, Fishman EK, Kamel IR, Schulick R, Zhang Z, et al. Frequent detection of pancreatic lesions in asymptomatic high-risk individuals. Gastroenterology. 2012;142(4):796-804; quiz e14-5.
  2. Kamisawa T, Wood LD, Itoi T, Takaori K. Pancreatic cancer. Lancet (London, England). 2016;388(10039):73-85.
  3. Strobel O, Rosow DE, Rakhlin EY, Lauwers GY, Trainor AG, Alsina J, et al. Pancreatic duct glands are distinct ductal compartments that react to chronic injury and mediate Shh-induced metaplasia. Gastroenterology. 2010;138(3):1166-77.
  4. Farrell JJ, Fernandez-del Castillo C. Pancreatic cystic neoplasms: management and unanswered questions. Gastroenterology. 2013;144(6):1303-15.
  5. Stark A, Donahue TR, Reber HA, Hines OJ. Pancreatic Cyst Disease: A Review. Jama. 2016;315(17):1882-93.
  6. Tanaka M, Fernandez-del Castillo C, Adsay V, Chari S, Falconi M, Jang JY, et al. International consensus guidelines 2012 for the management of IPMN and MCN of the pancreas. Pancreatology : official journal of the International Association of Pancreatology (IAP) [et al]. 2012;12(3):183-97.
  7. Brugge WR, Lewandrowski K, Lee-Lewandrowski E, Centeno BA, Szydlo T, Regan S, et al. Diagnosis of pancreatic cystic neoplasms: a report of the cooperative pancreatic cyst study. Gastroenterology. 2004;126(5):1330-6.
  8. de Jong K, Poley JW, van Hooft JE, Visser M, Bruno MJ, Fockens P. Endoscopic ultrasound-guided fine-needle aspiration of pancreatic cystic lesions provides inadequate material for cytology and laboratory analysis: initial results from a prospective study. Endoscopy. 2011;43(7):585-90.
  9. Gillette MA, Carr SA. Quantitative analysis of peptides and proteins in biomedicine by targeted mass spectrometry. Nature methods. 2013;10(1):28-34.

Fonte: J Clin Oncol. 2017 Nov 22. [Epub ahead of print]

palavras-chave: câncer de pâncreas, espectrometria de massa, diagnóstico, lesões císticas, cistos benignos, cistos pré-malignos, cistos malignos

Declaração legal, Política de Privacidade e Política de Uso